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“Eu sabia que podia ocupar aquele lugar”: mulher realiza sonho de operar equipamento de grande porte na logística

“Eu sabia que podia ocupar aquele lugar”: mulher realiza sonho de operar equipamento de grande porte na logística

Trajetória de Deborah Lopes revela desafios, resistência e o esforço do setor para ampliar a presença feminina em funções operacionais

O sonho de dirigir máquinas de grande porte antecede a própria carreira de Deborah Cristina Lopes. Aos 49 anos, a operadora de reach stacker de grande porte da Brado Logística construiu a trajetória profissional, movida pela convicção de que, um dia, iria assumir o comando do equipamento que observava em operação no terminal atrás de sua residência.

A familiaridade com veículos começou cedo, quando ganhou do padrasto um Fusca para aprender a dirigir. A experiência despertou ainda mais seu interesse e, agora, tinha a certeza de que gostaria de estar à frente de um volante. Sua primeira opção era conduzir caminhões, mas logo sua atenção voltou para as máquinas que ficavam no pátio do terminal de Sumaré e, em 2001, fez um curso técnico de empilhadeira e, três anos depois, começou a operar profissionalmente.

No início da carreira, era a única mulher em uma equipe de 11 homens. Precisou retomar funções e se adaptar a equipamentos totalmente manuais. Observava os colegas antes de executar as tarefas e enfrentou dificuldades até ganhar segurança. “Eu observava muito antes de fazer. No começo, não me saí tão bem; era tudo manual, mas eu queria aprender e nunca pensei em desistir, porque sabia que aquele era o meu lugar”, relembra.

Anos depois, teve a primeira passagem pela Brado, ainda como terceirizada, operando empilhadeiras de menor porte no terminal. O desempenho chamou a atenção da liderança, mas a carreira tomaria um rumo inesperado. Em 2018, decidiu explorar oportunidades no litoral paulista. Partiu com R$ 300 e uma mala. Sem conseguir vaga na operação, trabalhou como faxineira para se manter.

Todas as manhãs, deixava currículos e buscava uma chance de voltar às máquinas. “Eu ia atrás todos os dias. Trabalhei como faxineira, fiz o que precisava fazer, mas nunca deixei de entregar currículo. Eu sabia que não queria sair da área; queria voltar para a operação”, afirma.

 

Retorno à área operacional — A experiência fora da área reforçou o objetivo de retomar a carreira na logística. Meses depois, voltou ao interior paulista e conseguiu emprego como empilhadeirista, acumulando também a condução de caminhão em um barracão do setor de medicamentos, onde permaneceu por seis meses. Foi nesse período que recebeu o contato para retornar à Brado.

Em 2020, quando surgiu a vaga para operar reach stacker no terminal de Sumaré, foi chamada novamente. Mesmo empregada, não hesitou em aceitar. O equipamento é utilizado na movimentação de contêineres e exige precisão, atenção constante e o cumprimento rigoroso das normas de segurança, mas sempre chamou a atenção da profissional. “Quando me ligaram, eu não pensei duas vezes. Era a máquina que eu sempre olhava e dizia que um dia ia pilotar. Para mim, era a realização de um sonho mesmo”, diz.

Sobre ser mulher na operação, Deborah relata que já enfrentou situações de resistência e até sabotagem em experiências anteriores, incluindo danos intencionais a cargas sob sua responsabilidade. “Já passei por situações em que tentavam me queimar; faziam coisas para que o meu turno desse errado. Isso machuca, mas também fortalece. Eu sempre pensei que precisava provar pelo meu trabalho”, afirma.

Na Brado, diz que o contexto foi diferente desde o retorno. Segundo ela, já na chegada, a liderança reforçou que sua entrada na operação deveria ser acompanhada de respeito. “Desde que entrei aqui como efetiva, nunca tive problema. Sempre deixaram claro que eu tinha espaço para falar e que qualquer situação seria tratada. Isso faz muita diferença para a gente continuar”, declara.

Nos últimos seis anos, passou a operar diferentes equipamentos e afirma que foi incentivada a ampliar as próprias competências, superando receios iniciais com apoio da equipe. Hoje, diz que trabalha com tranquilidade e segurança. E o orgulho é visível ao falar do cotidiano. Durante obras ou visitas ao terminal, a dimensão da máquina chama a atenção de quem passa por ali.

“Quando o pessoal para e olha o tamanho da máquina, eu penso: sou eu que estou ali dentro. É uma grande responsabilidade, exige atenção o tempo todo, mas é isso que eu gosto de fazer. Eu tenho orgulho de mim mesma”, afirma. Ela não pensa em mudar de função. Considera que alcançou o objetivo que alimentou por anos.

 

O olhar de quem contrata — A trajetória de Deborah reflete um movimento gradual de ampliação da presença feminina na logística, setor historicamente masculino. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres representam 24% da força de trabalho global na logística. No Brasil, a participação é de cerca de 20%, segundo dados do IBGE, com índices ainda menores nas funções operacionais.

Na Brado, as mulheres correspondem a 35% do total de colaboradores e 26% do quadro operacional em terminais multimodais. Embora a maioria desses postos operacionais ainda seja ocupada por homens, esse percentual está acima da média nacional e internacional.

A gerente executiva de Recursos Humanos da Brado, Camila Matte, avalia que o desafio tem raízes estruturais. “Somos reflexo de uma sociedade que dita o que é para homens e para mulheres. Precisamos mostrar não só aos homens que podemos trazer mulheres para a operação, mas também às próprias mulheres que elas podem estar em qualquer posição”, afirma.

Segundo ela, a predominância masculina começa antes mesmo do processo seletivo, pois, dentro dos próprios cursos técnicos voltados ao setor operacional e de equipamentos, ainda há muito mais homens do que mulheres, o que impacta diretamente o número de candidatas no segmento.

Para a executiva, ampliar a presença feminina exige mais do que contratar. “Além de atingir um número, precisamos criar um ambiente em que essas profissionais se sintam seguras para permanecer e crescer. Diversidade não é só porta de entrada; é permanência, desenvolvimento e equidade no dia a dia”, diz.

A companhia mantém grupos de afinidade, promove a equidade salarial e desenvolve projetos voltados ao protagonismo feminino. Em 2025, foi finalista do Prêmio Sesi ODS 2025, na categoria Social, com o projeto “Seleção Inclusiva: Fundamentos da Equidade e do Protagonismo Feminino”, que revisa processos de recrutamento e busca ampliar oportunidades reais de progressão na carreira.

Camila afirma que a transformação cultural é contínua. “Estamos trabalhando para ampliar cada vez mais a participação feminina na operação. Isso passa por sensibilização interna, revisão de processos e incentivo para que mais mulheres se enxerguem nesses espaços”, conclui.

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A Brado é referência nacional em serviços de logística multimodal. Tem estrutura própria, composta por 22 locomotivas, cerca de 5 mil contêineres, mil vagões, equipamentos, armazéns e terminais, complementada por meio de parcerias estratégicas nos principais centros de consumo do país. Com atuação cada vez mais adaptada às necessidades dos mercados de importação, exportação e interno, a empresa preza pela excelência na movimentação de contêineres no Brasil, com foco na integração multimodal.


JN Imprensa

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