Gás natural e biometano avançam no transporte pesado e impulsionam uma nova geração de lubrificantes
À medida que montadoras, transportadoras e embarcadores ampliam investimentos em rotas de menor emissão, soluções de lubrificação evoluem para atender as novas demandas operacionais dos motores movidos a gás
A busca por alternativas capazes de reduzir as emissões no transporte pesado vem acelerando a adoção de tecnologias a gás natural e de biometano no Brasil. Nos últimos anos, as montadoras passaram a ampliar seus portfólios de caminhões a gás, enquanto operadores logísticos e embarcadores intensificam projetos voltados à utilização de combustíveis renováveis como parte de suas estratégias de descarbonização.
De acordo com a Anfavea, associação que representa as montadoras no Brasil, entre janeiro e dezembro de 2025, os emplacamentos de caminhões e ônibus a gás somaram 669 unidades. Já em 2026, até abril, o segmento acumulava 236 licenciamentos, com participação de mercado subindo de 0,5% para 0,8%. Embora grande parte das discussões esteja concentrada nos benefícios ambientais e energéticos dessas tecnologias, há uma transformação paralela: a evolução dos lubrificantes.
“A expansão do gás natural e do biometano no transporte pesado transforma a matriz energética das frotas e impõe novos desafios à lubrificação. Diferentemente dos motores diesel, que operam por ignição por compressão, os motores a gás utilizam a arquitetura do ciclo Otto e velas de ignição para iniciar a combustão. Essa característica altera as condições de operação do motor e exige formulações capazes de garantir proteção, durabilidade e eficiência ao longo de toda a vida útil do equipamento”, explica Vinicius Alberti, especialista técnico da Valvoline.
Ainda de acordo com Alberti, um dos principais fatores está relacionado ao comportamento dos combustíveis gasosos durante a combustão. “O gás natural e o biometano são combustíveis considerados ‘secos’.”. Eles produzem menos resíduos sólidos do que o diesel e geram fenômenos químicos distintos na câmara de combustão, o que exige uma proteção diferenciada do lubrificante.
Entre esses fenômenos está a chamada nitração, processo decorrente das reações entre nitrogênio e oxigênio, que ocorrem em altas temperaturas presentes na combustão. Ao longo do tempo, esse processo pode acelerar a degradação do lubrificante e comprometer sua capacidade de proteção caso a formulação não seja adequadamente desenvolvida.
Temperaturas mais elevadas exigem formulações mais robustas — Outro desafio está relacionado ao controle térmico. Com combustíveis gasosos, as temperaturas internas do motor tendem a ser mais elevadas. Isso aumenta a exigência em relação ao lubrificante, especialmente quanto à sua resistência à oxidação e à capacidade de preservar as propriedades ao longo do tempo.
Por esse motivo, os lubrificantes destinados a essas aplicações passaram a incorporar pacotes de aditivos cada vez mais sofisticados, com destaque para antioxidantes de alta performance, além de detergentes e dispersantes que auxiliam no controle dos resíduos gerados durante o processo de combustão.
“Quanto maior a temperatura de operação, maior a exigência sobre o lubrificante. A capacidade de resistir à oxidação passa a ser um fator crítico para preservar o desempenho e a durabilidade do motor”, destaca Alberti.
Diesel e ciclo Otto compartilham a mesma solução — Um dos exemplos mais avançados dessa evolução é o Valvoline Premium Blue One Solution Gen 2. Recém-lançado no mercado nacional, o produto reúne simultaneamente as especificações API CK-4, destinadas a motores diesel pesados, e API SP, voltada a motores de ciclo Otto, além da certificação Cummins CES 20092 para aplicações a gás natural e biometano.
Segundo Alberti, o diferencial da formulação está justamente na capacidade de atender a tecnologias de combustão distintas no universo heavy duty. “Enquanto a certificação CK-4 assegura a robustez exigida por aplicações diesel pesadas, a API SP incorpora requisitos associados aos motores de ciclo Otto. Isso permite que o produto atenda tanto a motores diesel quanto a aplicações pesadas movidas a gás natural e biometano”.
Para isso, a formulação incorpora um pacote de aditivos especialmente desenvolvido para lidar com os desafios da combustão dos combustíveis gasosos, oferecendo elevada resistência à oxidação, controle da nitração e proteção contra a degradação acelerada provocada pelas altas temperaturas de operação.
Embora reúna especificações normalmente associadas aos universos diesel e Otto, o Premium Blue One Solution Gen 2 não deve ser confundido com um lubrificante destinado a veículos leves. “Isso ocorre porque sua formulação e viscosidade 15W40 foram desenvolvidas especificamente para motores pesados, que operam com galerias de lubrificação maiores, volumes de óleo mais elevados e condições de carga mais severas”, reforça o especialista.
Veículos leves modernos utilizam arquiteturas distintas e viscosidades muito mais baixas, como 0W20, 5W20 ou 5W30, voltadas à maximização da eficiência energética e à redução do atrito interno.
A evolução dos lubrificantes acompanha uma tendência mais ampla da indústria de transporte: aumentar a eficiência energética e reduzir o impacto ambiental das operações. Além de contribuir para a proteção dos componentes internos do motor, formulações mais avançadas ajudam a ampliar os intervalos de troca, a reduzir o consumo de recursos e a minimizar a geração de resíduos associados à manutenção.
O próprio Valvoline Premium Blue One Solution Gen 2 foi desenvolvido para ampliar a disponibilidade operacional das frotas, podendo alcançar intervalos de troca de até 100 mil milhas (aproximadamente 160 mil quilômetros) em aplicações homologadas.
Para Alberti, a evolução da lubrificação acompanhará o crescimento das rotas alternativas de energia no transporte pesado. “À medida que o mercado amplia a adoção de gás natural, biometano e outras soluções de menor emissão, os lubrificantes também precisam evoluir. O desafio é garantir que eficiência, sustentabilidade e confiabilidade caminhem juntas na operação”.
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